MP de Santa Catarina conclui que cão Orelha não foi morto por adolescentes: órgão pede arquivamento do caso
Atualizado em 13/05/2026 às 09:16
O cão comunitário Orelha, cuja morte em janeiro gerou grande repercussão nacional. (fonte: Ilustração / Diário Nexus).
Após análise de quase dois mil arquivos digitais, o Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão comunitário Orelha não foi morto por agressão de adolescentes, mas sim por uma condição grave e preexistente. O órgão pediu à Justiça o arquivamento do caso, que havia ganhado repercussão nacional.
Conclusão do Ministério Público
O MP afirmou que os adolescentes e o cão “não estiveram juntos na praia no período da suposta agressão”. Segundo o órgão, a morte ocorreu devido a uma infecção crônica e não por violência humana. A promotoria protocolou sua manifestação de 170 páginas na Vara da Infância e Juventude da Comarca da Capital, após examinar vídeos, mensagens e fotos.
A análise revelou inconsistências nos horários das câmeras de segurança, indicando uma defasagem de cerca de 30 minutos entre os sistemas. Essa diferença, segundo o MP, altera substancialmente a cronologia dos fatos e afasta a hipótese de que o animal e os adolescentes tenham compartilhado o mesmo espaço.
Reconstituição e provas técnicas
A reconstituição feita pela promotoria mostrou que, enquanto o jovem estava na praia, o cão encontrava-se a cerca de 600 metros de distância. Imagens analisadas indicam que Orelha mantinha plena capacidade motora quase uma hora após o horário em que se presume a agressão, o que contradiz a versão inicial da Polícia Civil.
Laudos periciais e o depoimento do médico-veterinário que atendeu o animal também afastaram a hipótese de maus-tratos. A exumação revelou ausência de fraturas ou lesões compatíveis com ação humana, mas confirmou sinais de osteomielite — uma infecção óssea grave e crônica — na região maxilar esquerda.
Arquivamento e desdobramentos
Além de solicitar o arquivamento do caso principal, o MP também pediu o encerramento do inquérito que investigava suposta coação de testemunhas. O órgão encaminhou cópia dos autos à Corregedoria da Polícia Civil para apurar possíveis irregularidades na investigação e à 9ª Promotoria de Justiça para avaliar a divulgação indevida de informações sigilosas à imprensa.
A Polícia Civil informou que concluiu as investigações e encaminhou os autos ao Ministério Público, ressaltando que ambos os órgãos atuam de forma independente e dentro das atribuições legais.
Leitura Nexus: o peso da perícia e da narrativa pública
O caso do cão Orelha expõe como investigações de grande repercussão podem ser moldadas por percepções iniciais e pela pressão social. A revisão técnica do Ministério Público mostra a importância da perícia detalhada e da verificação cronológica antes de conclusões precipitadas.
A decisão de arquivamento reforça o papel da ciência forense e da análise de evidências digitais em casos de comoção pública. Também levanta debates sobre a responsabilidade na divulgação de informações sensíveis envolvendo menores de idade.
Em tempos de viralização instantânea, o episódio serve de alerta para o impacto das narrativas nas redes e a necessidade de prudência institucional diante da opinião pública.
Edição e Análise: Redação Diário Nexus