Santa Catarina zera mortes de policiais, mas vive paradoxo: proteção de agentes avança enquanto letalidade policial cresce

W. Martins
Redator

Publicado em 23/07/2026 às 12:56

Santa Catarina zera mortes de policiais, mas vive paradoxo: proteção de agentes avança enquanto letalidade policial cresce

Viaturas da Polícia Militar de Santa Catarina simbolizam o modelo de segurança que zerou mortes de agentes em 2025. (Fonte: ND+ / Foto de Felipe Bambace / NDTV RECORD).

Santa Catarina entrou para o grupo seleto de estados que não registraram assassinatos de policiais em 2025. O dado, porém, revela um paradoxo: enquanto a proteção aos agentes avança, a letalidade policial cresce e passa a representar mais de 16% das mortes violentas do estado. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostra que o modelo catarinense reduz riscos para policiais, mas amplia o debate sobre o uso da força.





Um dos estados mais seguros para policiais — e por quê

Santa Catarina não registrou nenhuma morte de policiais em 2025. O resultado repete o desempenho de 2023 e contrasta com estados onde agentes seguem expostos a confrontos letais. A ausência de assassinatos não é fruto de acaso: especialistas apontam que o estado consolidou, ao longo da última década, uma cultura de policiamento baseada em planejamento, tecnologia e protocolos rígidos de atuação.

A PM catarinense opera com forte integração entre batalhões, uso intensivo de georreferenciamento e monitoramento de áreas críticas. Além disso, o estado mantém índices baixos de criminalidade violenta, o que reduz a exposição dos agentes a situações de risco extremo. A combinação de treinamento contínuo e menor circulação de armas ilegais cria um ambiente mais seguro para quem está na linha de frente.

Outro fator é a estrutura organizacional: Santa Catarina tem uma das menores taxas de déficit de efetivo do país, o que diminui sobrecarga e fadiga — elementos que, em outros estados, aumentam a vulnerabilidade dos policiais.





O paradoxo catarinense: policiais não morrem, mas a polícia mata mais

Se por um lado Santa Catarina protege seus agentes, por outro a letalidade policial cresceu 24,6% entre 2024 e 2025. Foram 100 mortes decorrentes de intervenção policial no último ano, contra 79 no período anterior. A maior parte delas ocorreu em horário de serviço.

O dado revela um paradoxo: o estado que melhor preserva a vida de seus policiais também registra aumento no número de pessoas mortas em ações policiais. A taxa catarinense chegou a 1,2 morte por 100 mil habitantes — abaixo da média nacional (3,1), mas em trajetória ascendente.

Para especialistas, isso indica que o modelo catarinense privilegia a autoproteção dos agentes, mas ainda enfrenta desafios na gestão do uso da força. A PM opera com protocolos rígidos, mas o aumento de confrontos fatais sugere que a corporação está atuando em cenários mais agressivos ou com menor margem de negociação.





Suicídios entre policiais: o dado que não aparece nas manchetes

O Anuário também revela um aspecto pouco discutido: o impacto psicológico sobre os agentes. Em 2024, Santa Catarina registrou quatro suicídios entre policiais — três militares e um civil. Em 2025, houve queda, mas ainda assim um policial militar tirou a própria vida.

A redução das mortes em serviço não elimina o estresse ocupacional, a pressão institucional e a carga emocional da profissão. Para especialistas, o estado precisa avançar em políticas de saúde mental, especialmente porque o aumento da letalidade policial costuma estar associado a ambientes de maior tensão operacional.

Por que Santa Catarina se destaca no cenário nacional

Além de Santa Catarina, apenas Acre, Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Sergipe não registraram assassinatos de policiais em 2025. A lista mostra que o fenômeno não está restrito a regiões específicas, mas a estados com modelos de policiamento mais estruturados.

Santa Catarina, porém, se destaca por manter esse padrão ao longo dos anos. Nos últimos cinco anos, o estado registrou apenas cinco assassinatos de policiais militares — número muito inferior ao de estados com populações semelhantes.

A estabilidade do modelo catarinense indica que o estado conseguiu equilibrar políticas de prevenção, inteligência e presença territorial sem recorrer a práticas de confronto indiscriminado.

Leitura Nexus: o que os números realmente revelam

A queda nas mortes de policiais não significa, necessariamente, que o estado está menos violento — significa que o modelo catarinense protege seus agentes. O aumento da letalidade policial, por outro lado, mostra que a polícia está atuando de forma mais assertiva, com maior uso da força letal.

O desafio para Santa Catarina é avançar para uma terceira fase: manter a proteção aos policiais, reduzir a letalidade e ampliar mecanismos de negociação e desescalada de conflitos. O estado tem estrutura para isso — e os dados mostram que o próximo passo é possível.

O que esperar agora

Santa Catarina deve continuar sendo um dos estados mais seguros para policiais, mas o aumento da letalidade exige atenção. O equilíbrio entre proteção aos agentes e redução de mortes em intervenções será o principal desafio da segurança pública catarinense nos próximos anos.

O estado tem condições de se tornar referência nacional em policiamento de baixa letalidade — desde que avance em protocolos de desescalada, treinamento psicológico e revisão de práticas operacionais.

Edição e Análise: Redação Diário Nexus

Fonte da Informação: Portal ND+

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